By Mauro Carrusca e Márcia Vieira
Há muitos anos, li “A Nova Cultura do Desejo”, de Melinda Davis, renomada consultora americana. Através de uma técnica muito interessante de pesquisa que reunia grupos de pessoas com perfis heterogêneos em jantares ou festas, Melinda investigava o que movia o comportamento humano na primeira década dos anos 2000. No livro, revela os desejos das pessoas no novo milênio, assim como estratégias de marketing para satisfazê-los.
Ao ler o report “Bits e WGSN – Para onde vamos – 2025” apresentado por Beatriz Guarezi, o livro – A Nova Cultura do Desejo – me veio à mente e não consegui mais parar de pensar em como Melinda foi inovadora em sua pesquisa e em como, já diziam nossos avós, esse mundo dá voltas. Sim, cara, eles sempre tiveram razão (e nós não dávamos a mínima!). Pois agora estamos revivendo a nostalgia em doses cavalares.
Em primeiro lugar, é importante registrar que este relatório não traz IA como a grande prioridade de 2025, mas, sim, a revalorização de itens, hábitos e comportamentos antigos (anos 1970, 1980…) e sua repaginação e recombinação com hábitos contemporâneos. Coisas como consumir mídias físicas (folhear revistas), encontrar pessoas em cafés, ir a lojas físicas para viver experiências, disco de vinil, livro de colorir e por aí vai estão de novo em alta.
Folhear revistas, encontrar pessoas em cafés, ir a lojas físicas para viver experiências, disco de vinil, livro de colorir e por aí vai estão de novo em alta.
A verdade é que as pessoas estão saturadas de telas, de “scrollar” telas horas seguidas, sem direção, dando likes em conteúdos produzidos por pessoas que não conhecem (ou mais frequentemente criados por alguma inteligência artificial) e que não fazem absolutamente nenhuma diferença em suas vidas. Isso está deixando de fazer sentido.
Diante do frisson midiático da tecnologia e, particularmente da IA, é curioso ver que a sensação das gerações baby boomers, X, Y, Z e até os Alphas é que “já deu”. As pessoas estão cansadas. Cada vez mais estão buscando conexões e experiências no mundo real!!! Isso inclui vivenciar emoções, dar risada ou simplesmente estar fisicamente próximo a outros seres humanos.
Como mostra o estudo, anúncios repetitivos e genéricos, que interrompem a experiência em todos os aplicativos são invasivos, irritantes e geram antipatia (como as marcas ainda insistem nessas táticas?). Para conversar com as pessoas, é preciso criar e facilitar encontros em torno de algo que elas têm em comum ou atividades que possam ser compartilhadas.
Há marcas que combinam elementos e fazem bem a transição online e offline atraindo e engajando pessoas. A TikTok, por exemplo, abriu uma livraria temporária na Avenida Paulista em dezembro do ano passado e distribuiu gratuitamente 100 mil livros físicos. E as pessoas da comunidade #BookTokBrasil formaram filas gigantescas para receber um exemplar (https://bit.ly/3Qqn0I6).
A Nike integra experiências digitais e físicas, ao conectar corredores ao redor do mundo através de um app, promovendo desafios que podem ser complementados por eventos presenciais. Além disso, suas lojas oferecem experiências interativas, como a customização de tênis ao vivo. A empresa também usa plataformas internas como o Nike Adapt para comunicação e desenvolvimento profissional, além de promover eventos físicos para engajamento da equipe.
Recentemente, tive o prazer de assistir à peça teatral “Uma passagem para dois”. A encenação inova com projeções de ambientes criados por inteligência artificial projetados em um painel de LED integrado ao cenário e recursos de live cinema. É a tradição de mãos dadas com a inovação. Não resisti e esse show de sensibilidade e criatividade me inspirou a fazer uma reflexão sobre o tratamento, ora exagerado, ora irresponsável da inteligência artificial, que se transformou em uma onda avassaladora na internet, na imprensa, nos eventos de negócios e nas empresas. Veja o artigo IA – do Hype à Exaustão.
Outro aspecto importante abordado no report: 62% dos consumidores consideram a confiança um fator decisivo na escolha de marcas (Accenture). Confiança será cada vez mais uma credencial fundamental neste mundo onde as linhas entre o real e o virtual, o original e o falso estão cada vez mais borradas.
62% dos consumidores consideram a confiança um fator decisivo na escolha de marcas (Accenture).
Resumindo, as questões climáticas, as relações humanas, a saúde mental, a originalidade das criações, as experiências simples, mas autênticas e gratificantes (como o cheiro de bolo de fubá), as soluções que envolvem trocas, compartilhamento, colaboração, assim como o conhecimento forjado por anos de vivência, estudo e dedicação é que estão importando após esse primeiro quarto de século.
Felizmente, muitas empresas entenderam que, a busca pela inovação inclui, em primeira mão, a busca pela saúde mental de todos que compõem o negócio, já que empresas são formadas por seres humanos. Nessa linha, recomendo a leitura do artigo – Da “doença mental” para a “saúde mental”.
Isso não quer dizer que vamos abrir mão de agentes de IA, robôs e automações. O que o ser humano dos anos 2025 parecem buscar é um equilíbrio saudável entre a vida humana e a tecnologia.
E você, como enxerga os comportamentos dominantes em 2025? Qual é a nova cultura do desejo? Como você vê a saúde mental nos dias de hoje?
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Mauro Carrusca
Innovation Strategist | futuristic | Advisor | Board Member |Membro do Conselho de Presidentes MG | ESG Evangelist | CEO & Founder of KER Innovation | Speaker
Márcia Vieira
Especialista em inovação colaborativa, marketing, branding e comunicação corporativa. Estrategista em programas de inovação, transformação cultural, metodologias ágeis e colaborativas. Formação em inteligência artificial e entusiasta de tecnologias emergentes e design.